Por Junior Campos Prado
Engenheiro pela USP, empresário, palestrante internacional, autor de 7 livros, atual presidente da Academia Jahuense de Letras (2005 – 2027) e referência nacional em Kaizen e Autogestão. Criador do Método KIAI, mentor de empresários, bicampeão mundial de karatê e Governador do Rotary Internacional – Distrito 4480 (2027–2028).
Entramos em mais um período eleitoral preocupados, com razão, com fake news, vídeos manipulados, vozes clonadas, imagens produzidas por inteligência artificial e campanhas cada vez mais sofisticadas para influenciar o eleitor. A tecnologia tornou possível fabricar conteúdos extremamente convincentes, capazes de colocar palavras na boca de qualquer pessoa e transformar acontecimentos falsos em cenas aparentemente reais. Mas, embora esse risco seja enorme, talvez exista uma ameaça ainda mais profunda, silenciosa e difícil de regulamentar: a nossa vontade de acreditar naquilo que confirma o que já sentimos.
Uma imagem falsa não se espalha apenas porque foi bem produzida. Ela se espalha porque encontra medo, raiva, ressentimento, esperança, identificação e desejo de pertencimento. A tecnologia fabrica o conteúdo, mas é a emoção humana que decide aceitá-lo, compartilhá-lo e defendê-lo. Em muitos casos, não perguntamos primeiro se algo é verdadeiro. Perguntamos, quase sem perceber, se aquilo favorece o nosso lado.
Essa é uma provocação desconfortável porque gostamos de imaginar que somos racionais e que os manipulados são sempre os outros. Acreditamos que o adversário político é conduzido por emoções, enquanto nossas próprias escolhas seriam resultado de análise, conhecimento e bom senso. Porém, o ser humano não se torna racional apenas porque fala com convicção. Convicção também pode ser medo bem organizado, raiva disfarçada de certeza ou pertencimento apresentado como pensamento crítico.
A neurociência mostra que nosso cérebro procura coerência. Quando recebemos uma informação alinhada ao que já acreditamos, ela encontra menos resistência. Quando o conteúdo contraria nossas convicções, tendemos a questionar a fonte, buscar falhas e criar justificativas para rejeitá-lo. Esse mecanismo não pertence a um partido, a uma ideologia ou a uma faixa social. Ele pertence ao ser humano.
É por isso que a desinformação política não deve ser tratada apenas como problema tecnológico. Ela também é um problema de autogestão.
Autogestão política é conseguir perceber quando uma notícia desperta uma emoção intensa antes de tomar qualquer atitude. É reconhecer que o desejo de atacar o outro pode estar reduzindo nossa capacidade de verificar. É suportar alguns minutos de dúvida. É pesquisar a origem, comparar fontes e aceitar a possibilidade de que uma informação conveniente para o nosso lado também possa ser falsa.
Hoje, muitas pessoas compartilham uma acusação não porque tenham certeza de que seja verdadeira, mas porque desejam que ela seja. A mentira se torna aceitável quando atinge alguém de quem não gostamos. Criamos uma ética seletiva: exigimos provas contra os nossos e aceitamos rumores contra os outros. Depois reclamamos da qualidade da política, como se a cultura política não fosse formada também por aquilo que premiamos com nossa atenção.
As redes sociais compreenderam muito bem esse funcionamento. Conteúdos que provocam indignação, medo, surpresa e conflito costumam chamar mais atenção do que explicações equilibradas. Uma análise cuidadosa exige tempo. Uma acusação escandalosa exige apenas um clique. A serenidade raramente viraliza com a mesma velocidade da raiva.
Não digo isso para absolver as plataformas, os candidatos ou os grupos que produzem desinformação deliberadamente. Quem fabrica uma mentira para manipular uma eleição precisa responder por seus atos. Empresas de tecnologia também precisam assumir responsabilidade pelo ambiente que criaram e pelos estímulos que utilizam para prolongar nosso tempo de exposição. Mas nenhuma regulamentação será suficiente se o eleitor continuar tratando o compartilhamento como reação emocional e não como ato de responsabilidade pública.
Compartilhar conteúdo político não é uma atitude neutra. É participar da formação da opinião de outras pessoas. Quando repassamos algo sem verificar, não estamos apenas expressando liberdade. Estamos assumindo o risco de contaminar o debate público. A liberdade de expressão não elimina a responsabilidade sobre as consequências daquilo que ajudamos a espalhar.
Nas artes marciais, aprendi que a primeira reação nem sempre é a melhor resposta. O adversário pode provocar, acelerar o ritmo ou criar uma abertura falsa para que o atleta aja por impulso. Quem perde o controle emocional entrega sua estratégia. No tatame, reagir imediatamente a todo estímulo é sinal de vulnerabilidade, não de força.
Na política acontece algo parecido. Uma notícia que provoca indignação pode estar tentando exatamente isso: retirar nossa serenidade, acelerar nosso julgamento e transformar nossa emoção em ferramenta de uma campanha. Quando reagimos sem pensar, talvez estejamos fazendo aquilo que alguém planejou que fizéssemos.
O controle emocional não significa passividade. No karatê, manter serenidade não é deixar de agir. É agir no tempo certo, com consciência e direção. Na vida pública, também precisamos aprender a diferenciar indignação legítima de manipulação emocional. Há fatos que merecem denúncia, crítica e posicionamento firme. Mas firmeza sem verificação pode apenas fortalecer uma mentira.
Como engenheiro, aprendi que nenhuma decisão séria pode ser tomada examinando apenas a informação que confirma o projeto inicial. Quando o terreno apresenta um dado contrário à expectativa, ignorá-lo não fortalece a obra. Coloca toda a estrutura em risco. Um bom profissional não escolhe os dados de que gosta. Analisa também aqueles que o obrigam a revisar suas convicções.
Na política, porém, muitas pessoas tratam a realidade como uma obra em que só podem entrar informações favoráveis ao próprio projeto ideológico. Tudo o que confirma o grupo é aceito. Tudo o que questiona o grupo é interpretado como perseguição, conspiração ou manipulação. Com isso, deixamos de avaliar fatos e passamos a proteger identidades.
A polarização oferece uma sensação confortável de simplicidade. De um lado estariam todas as virtudes. Do outro, todos os problemas. Essa narrativa reduz a angústia de viver em um mundo complexo, mas também enfraquece nossa maturidade. Democracia exige conviver com contradições, reconhecer acertos em quem não admiramos e identificar erros em pessoas com quem nos identificamos.
Talvez uma das maiores provas de inteligência emocional seja conseguir criticar o próprio lado.
Quem só identifica corrupção, incompetência, mentira e incoerência no adversário não está necessariamente pensando politicamente. Pode estar apenas defendendo sua tribo. Pensamento crítico começa quando aplicamos os mesmos critérios às pessoas de quem gostamos e àquelas de quem discordamos.
É nesse ponto que o Kaizen pode contribuir para a cidadania. Não precisamos imaginar que nos tornaremos eleitores perfeitamente racionais de uma hora para outra. Podemos começar com pequenas melhorias. Esperar alguns minutos antes de compartilhar. Ler além do título. Consultar a fonte original. Desconfiar de conteúdos que despertam emoção intensa. Perguntar quem se beneficia daquela narrativa. Corrigir publicamente uma informação quando descobrimos que ela era falsa.
Esses pequenos gestos parecem simples, mas representam uma mudança cultural profunda. O Kaizen ensina que grandes transformações nascem de comportamentos pequenos repetidos com consciência. Uma democracia mais madura também pode começar dessa maneira, não apenas com grandes reformas, mas com milhões de cidadãos melhorando um pouco a qualidade das próprias escolhas.
A inteligência artificial tornará as falsificações mais convincentes. Em breve, talvez seja praticamente impossível confiar apenas nos olhos e nos ouvidos. Isso exigirá novas ferramentas de verificação, regras mais claras e instituições preparadas. Porém, exigirá principalmente uma competência humana que nenhuma tecnologia poderá instalar automaticamente em nós: a humildade de duvidar daquilo em que desejamos acreditar.
O eleitor emocionalmente maduro não é aquele que não sente raiva, medo ou esperança. É aquele que reconhece essas emoções e não permite que elas decidam sozinhas. Ele compreende que votar não é torcer. Não escolhe apenas quem representa sua indignação, mas procura entender projetos, trajetórias, competências, consequências e capacidade real de liderança.
Talvez a maior ameaça desta eleição não seja apenas um vídeo falso criado por inteligência artificial. Pode ser o cidadão verdadeiro que, dominado pela emoção, se recusa a verificar porque a mentira lhe parece conveniente.
As máquinas poderão produzir falsificações cada vez mais perfeitas. Mas serão nossas escolhas que decidirão se elas terão poder. No fim, a defesa mais importante da democracia não estará apenas nos tribunais, nas plataformas ou nos sistemas de detecção. Estará dentro de cada eleitor, no pequeno espaço entre receber uma informação e decidir o que fazer com ela.
É nesse espaço que mora a autogestão. E talvez seja também nesse espaço, silencioso e quase invisível, que o futuro do país começa a ser decidido.