A próxima tragédia climática não começa na chuva. Começa no que a cidade deixou de fazer

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Por Junior Campos Prado

Engenheiro pela USP, empresário, palestrante internacional, autor de sete livros e referência nacional em Kaizen e Autogestão. Criador do Método KIAI, mentor de empresários, bicampeão mundial de karatê e governador eleito do Rotary International, Distrito 4480, para a gestão 2027–2028.

Sempre que uma chuva extrema atinge uma cidade brasileira, assistimos a cenas que parecem se repetir. Ruas transformadas em rios, encostas desmoronando, famílias deixando suas casas às pressas, pontes interrompidas, escolas fechadas e equipes de resgate tentando salvar vidas em meio ao caos. Durante alguns dias, o país acompanha a tragédia, mobiliza doações, cobra respostas e presta homenagens às vítimas. Depois, quando a água baixa e as imagens desaparecem do noticiário, a prevenção também costuma desaparecer das prioridades.

Esse ciclo precisa ser interrompido.

Neste momento, o Brasil volta a receber alertas sobre a intensificação do El Niño e seus possíveis efeitos. As projeções indicam maior risco de chuvas intensas em partes do Sul, enquanto outras regiões podem enfrentar calor, estiagem, baixa umidade e incêndios. O cenário exato varia de acordo com cada território, mas a mensagem central já está suficientemente clara: as cidades precisam se preparar antes que a emergência aconteça.

A grande questão é que ainda tratamos prevenção como despesa e reconstrução como investimento. Esperamos a ponte cair para descobrir sua importância. Esperamos o rio transbordar para discutir a drenagem. Esperamos a encosta deslizar para reconhecer que havia famílias expostas. Esperamos faltar água para falar sobre segurança hídrica. Esperamos o desastre acontecer para encontrar rapidamente recursos que nunca pareciam disponíveis quando o assunto era prevenção.

Existe algo profundamente equivocado nessa lógica.

Como engenheiro, aprendi que uma estrutura raramente entra em colapso sem dar sinais. Surgem pequenas trincas, deformações, infiltrações, desgastes, falhas de drenagem e alterações que, quando observadas a tempo, permitem intervenções muito menores. O problema é que a manutenção não produz inauguração, fotografia ou discurso empolgante. Ela é silenciosa. Quando funciona, nada acontece.

E talvez seja justamente por isso que a prevenção receba tão pouco reconhecimento.

Um governante que inaugura uma obra aparece. A equipe que limpa galerias antes das chuvas dificilmente será lembrada. Uma grande reconstrução mobiliza autoridades e meios de comunicação. A estabilização preventiva de uma encosta acontece longe dos holofotes. A tragédia cria heróis visíveis. A prevenção cria resultados invisíveis.

Mas o fato de nada ter acontecido pode ser exatamente o maior resultado.

Em fevereiro de 2026, enchentes e deslizamentos na Zona da Mata mineira deixaram 73 mortos e mais de 5.500 pessoas desalojadas. Juiz de Fora registrou o fevereiro mais chuvoso de sua história, com volume muito superior à média mensal. A intensidade da chuva foi extraordinária, mas os impactos também estiveram ligados à ocupação de áreas vulneráveis, ao relevo, à infraestrutura e à dificuldade de retirar pessoas das regiões ameaçadas.

Não podemos controlar o volume de chuva. Podemos, porém, reduzir a quantidade de pessoas expostas, melhorar sistemas de drenagem, fiscalizar novas ocupações, recuperar áreas degradadas, ampliar o monitoramento, organizar rotas de saída, fortalecer a Defesa Civil e criar uma comunicação que seja realmente compreendida pela população.

Essa distinção é fundamental. A Organização das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres explica que uma ameaça natural se transforma em desastre quando encontra exposição, vulnerabilidade e baixa capacidade de resposta. O Cemaden segue a mesma lógica: o risco não depende apenas do evento climático, mas também das condições sociais, econômicas, ambientais e estruturais de cada comunidade.

A chuva pode ser natural. A construção do risco é humana.

Isso não significa procurar um culpado depois de cada tragédia. Significa reconhecer responsabilidades antes dela. Muitas das situações que tornam uma cidade vulnerável foram formadas durante décadas, atravessando diferentes governos, períodos de crescimento urbano, desigualdades sociais e decisões que pareciam pequenas quando foram tomadas.

Uma casa construída junto a um curso d’água não surgiu necessariamente porque alguém decidiu desafiar a natureza. Muitas vezes, surgiu porque aquela família não tinha acesso a outro lugar. Um bairro levantado em uma encosta pode representar anos de abandono habitacional, ausência de fiscalização e tolerância gradual do poder público. Quando o risco se consolida, retirar pessoas de suas casas envolve história, afeto, trabalho, escola, vizinhança e sobrevivência.

Por isso, prevenção exige mais do que engenharia. Exige humanidade.

Não basta desenhar mapas de risco e esperar que as pessoas saiam. É preciso criar alternativas habitacionais dignas, dialogar com as comunidades, compreender resistências, construir confiança e garantir que uma família não troque um risco geológico por uma vida socialmente inviável. A remoção feita apenas com ordem técnica pode fracassar quando ignora a realidade humana.

Ao mesmo tempo, não podemos usar a complexidade social como desculpa para continuar adiando decisões. Liderança é justamente a capacidade de enfrentar problemas difíceis antes que se tornem insuportáveis.

É nesse ponto que o Kaizen pode contribuir de maneira muito concreta para a gestão das cidades.

Quando falamos em Kaizen, muitas pessoas imaginam fábricas japonesas, linhas de produção e empresas buscando eficiência. Mas a essência da melhoria contínua pode ser aplicada a qualquer sistema humano. Uma cidade também possui processos, fluxos, desperdícios, indicadores, riscos, falhas recorrentes e oportunidades de aprendizado.

O Kaizen urbano começa com uma pergunta simples: o que podemos melhorar hoje para reduzir um pouco o risco de amanhã?

Talvez seja limpar um trecho crítico da drenagem. Atualizar o cadastro das famílias expostas. Verificar um pluviômetro. Treinar uma escola para uma evacuação. Corrigir a sinalização de uma rota segura. Revisar o contato de pessoas idosas ou com mobilidade reduzida. Inspecionar uma ponte. Retirar entulho de um córrego. Recuperar uma pequena área permeável. Conversar com moradores que deixaram de acreditar nos alertas.

Nenhuma dessas ações possui o impacto visual de uma grande obra. Juntas, porém, podem representar a diferença entre um evento climático grave e uma tragédia humana.

O Kaizen nos ensina a não esperar a solução perfeita para começar. Uma prefeitura talvez não consiga resolver toda a drenagem urbana em um único mandato, mas pode identificar os pontos mais críticos, definir prioridades, medir resultados e melhorar continuamente. Pode deixar de agir apenas quando a chuva chega e transformar a prevenção em rotina permanente.

Isso também exige continuidade administrativa. Um mapa de risco não pode perder valor quando muda o prefeito. Um plano de contingência não deve ser abandonado porque foi criado pela gestão anterior. A cidade precisa aprender como uma organização aprende, preservando conhecimento, corrigindo falhas e avançando sobre aquilo que já foi construído.

Infelizmente, no Brasil, muitas políticas públicas recomeçam do zero a cada troca de governo. A nova equipe deseja deixar sua marca, muda nomes, desmonta estruturas, substitui pessoas e perde aprendizados acumulados. O resultado é uma administração permanentemente iniciante diante de problemas que já são antigos.

Desastre climático não respeita calendário eleitoral.

Nas artes marciais, aprendi que não existe tempo para improvisar aquilo que deveria ter sido treinado. Quando o golpe chega, o corpo responde de acordo com aquilo que repetiu. O atleta não pode interromper a luta para estudar uma técnica, reorganizar a respiração ou construir equilíbrio. A resposta precisa ter sido preparada muito antes.

Com as cidades acontece o mesmo. Quando a sirene toca, já não é hora de descobrir quem deve tomar a decisão, qual escola receberá as famílias, como os idosos serão transportados ou qual estrada permanece segura. Tudo isso precisa ter sido definido, comunicado e treinado.

Improvisação pode ajudar durante uma emergência. Não pode ser o plano oficial.

Existe também uma diferença importante entre alerta e comunicação. Um alerta pode ser tecnicamente correto e ainda assim não produzir proteção. A população precisa entender a mensagem, acreditar na fonte, conhecer o risco e saber exatamente o que fazer. Se alguém recebe uma notificação genérica de chuva forte, mas não conhece a rota de saída nem possui um lugar seguro para ir, a informação pouco muda sua realidade.

A confiança também é construída por pequenos passos. Quando o poder público comunica com clareza, aparece antes da emergência, conversa com as comunidades e cumpre os compromissos assumidos, as pessoas tendem a responder melhor. Quando só aparece depois da tragédia, encontra uma população desconfiada, assustada e cansada de promessas.

Prevenção é também relacionamento.

As empresas igualmente precisam participar dessa discussão. Mudanças climáticas afetam cadeias logísticas, energia, seguros, fornecedores, funcionários e continuidade operacional. Uma organização que ignora riscos climáticos porque sua sede nunca alagou pode descobrir que seu principal fornecedor, sua estrada de acesso ou a residência de grande parte dos colaboradores estava exposta.

Responsabilidade empresarial não se resume a fazer doações depois da enchente. Pode envolver apoiar planos municipais, compartilhar tecnologia, capacitar voluntários, proteger dados críticos, revisar instalações e contribuir com a preparação das comunidades onde a empresa está inserida.

A família também possui um papel. Conhecer os riscos do bairro, acompanhar fontes oficiais, manter documentos organizados, conversar com crianças, respeitar orientações de evacuação e não descartar lixo em locais inadequados são pequenas atitudes que aumentam a capacidade de resposta.

Mas precisamos tomar cuidado para não transferir toda a responsabilidade ao indivíduo. Uma família não resolve sozinha a falta de saneamento, moradia segura, drenagem ou planejamento urbano. Autogestão é essencial, mas não substitui políticas públicas. A responsabilidade pessoal e a responsabilidade institucional precisam caminhar juntas.

O que não podemos mais aceitar é a repetição da surpresa.

Podemos não saber exatamente onde ocorrerá o próximo evento extremo, qual será sua intensidade ou qual comunidade será atingida primeiro. Mas sabemos que chuvas intensas, secas, ondas de calor, incêndios e problemas hídricos continuarão exigindo cidades mais preparadas. A Organização Meteorológica Mundial registrou, na América Latina e no Caribe, calor recorde, secas persistentes e chuvas extremas com fortes impactos humanos e econômicos.

Diante disso, não basta falar em reconstrução resiliente depois de cada desastre. Precisamos construir resiliência antes dele.

Resiliência não é obrigar uma comunidade a suportar repetidamente as mesmas perdas. Não é elogiar a força das pessoas enquanto elas reconstroem aquilo que poderia ter sido protegido. Resiliência verdadeira é reduzir a vulnerabilidade, aprender com os erros e impedir que a mesma tragédia continue sendo considerada inevitável.

O brasileiro é extraordinário na solidariedade. Quando uma cidade sofre, surgem voluntários, doações, cozinhas comunitárias, abrigos e pessoas dispostas a ajudar desconhecidos. Essa capacidade humana precisa ser valorizada. Mas talvez tenha chegado a hora de transformar parte dessa solidariedade emergencial em participação preventiva.

Em vez de nos mobilizarmos apenas quando a água invade as casas, podemos também participar de conselhos, cobrar planos, acompanhar obras, apoiar simulados, conhecer rotas e ajudar a construir uma cultura de prevenção.

Como engenheiro, empresário e praticante do Kaizen, acredito que o verdadeiro progresso nem sempre está na grande obra que todos enxergam. Muitas vezes, está na pequena correção feita a tempo.

Uma galeria limpa. Uma encosta monitorada. Uma família retirada antes da chuva. Uma sirene testada. Uma árvore preservada. Uma área permeável recuperada. Um plano revisado. Uma informação que chegou de forma clara.

Pequenas ações podem evitar grandes perdas.

A próxima tragédia climática pode começar com uma chuva excepcional, mas sua dimensão será definida por tudo aquilo que fizemos, ou deixamos de fazer, antes da primeira gota.

Reconstruir é necessário. Socorrer é obrigação. Demonstrar solidariedade é profundamente humano. Mas liderar de verdade significa agir quando ainda não existe câmera, manchete, comoção ou aplauso.

Prevenção é o Kaizen das cidades.

É cuidar um pouco todos os dias para não precisar lamentar tanto depois. É reconhecer que o evento climático pode ser inevitável, mas o sofrimento não precisa alcançar sempre a mesma dimensão. É substituir a cultura do improviso pela cultura da preparação.

No fim, a cidade mais moderna não será aquela que possuir os prédios mais altos, as avenidas mais largas ou a tecnologia mais sofisticada. Será aquela que conseguir proteger melhor as pessoas, especialmente as que possuem menos condições de se proteger sozinhas.

Porque uma cidade verdadeiramente inteligente não espera a tragédia para descobrir onde era vulnerável. Ela aprende, melhora e age antes da chuva.

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